11/01/2012

A salvação está na Rua Augusta



Vini de La Rocha, na Revista Void


É domingo e estamos no Clube Outs, na altura do número 486 da Rua Augusta, reduto de bares, restaurantes, casas de shows e puteiros da cidade de São Paulo. No balcão do local, onde deveriam estar algumas latas de cerveja vazias, repousam copos plásticos e uma garrafa de 5 litros com água. Na pista de dança, ao invés do tradicional xaveco, a palavra de Deus.

O ambiente é muito parecido com o de uma balada – e não deixa de ser, afinal o local é uma “boate”. Uma galera estilosa, com camisas xadrez, bonés e gorros, tênis All Star e Adidas, piercings e tatuagens, conversa por ali enquanto a banda, já no palco, prepara-se para o show. E basta o vocalista soltar a voz para notarmos que não se trata de uma simples festa. “Senhor, quero conhecer a tua glória e o teu poder”, canta Sidney Silva, 31 anos, acompanhado por uma bonita backing vocal, dois guitarristas, baixista e percussionista. Ao lado do palco, um telão exibe as letras das músicas para o pessoal acompanhar e louvar junto. E eles realmente acompanham. É esse o clima dos cultos da Igreja Capital Augusta, que tem como slogan “Proibido Pessoas Perfeitas”.


A apresentação termina e entra em cena o pastor Junior Souza, 37 anos, professor na Faculdade de Teologia Metodista Livre de São Paulo. Brinco na orelha e tatuagem no antebraço, ele pede a palavra, lê alguns trechos da Bíblia e passa informações importantes, como o local do próximo encontro, que não será no Outs por motivos financeiros.

“A grana do aluguel vai para a nossa amiga Ane e sua família. Ela está com câncer e iremos ajudá-la. Somos uma comunidade para isso também”, diz Junior, que ajudou na criação da igreja em abril de 2009. Em seguida, ele anuncia uma pausa para os aproximadamente 60 fiéis presentes, em sua maioria designers, publicitários e demais profissionais ligados, de alguma maneira, à comunicação. “Comece a conversar com quem está ao seu lado, pergunte por que ele ou ela está aqui”, puxa o pastor.

É o momento para troca de ideias e experiências, que aos olhos de um desavisado poderia até parecer uma sessão de xaveco coletivo. Mas é bem diferente disso. Por fim, a banda retorna e toca mais algumas canções próprias e músicas do Movimento Vineyard, organização de igrejas criada em Beverly Hills, Califórnia, nos anos 70.

Protestante, a Capital – como é carinhosamente chamada por seus membros – realiza os cultos sempre aos domingos, às vezes no Outs, outras no vão do MASP (Museu de Arte de São Paulo). Durante a semana, rolam encontros nas casas de alguns fiéis. “Nessas reuniões, é o momento para sentar e conversar, ver se ficou alguma dúvida sobre os cultos. Vão sempre entre 10 e 15 pessoas e rola aquela preocupação em saber se o outro está bem, se está precisando de alguma coisa. É mais pessoal.

A gente acredita em relacionamentos e é uma oportunidade que temos para exercer isso”, explica Guilherme Menga, 28 anos, que também ajudou na criação da Capital e, eventualmente, participa das pregações. Ao lado de mais 11 pessoas, ele forma a chamada Dorsal, uma espécie de liderança da igreja.

“Não tem hierarquia ou cargos, a gente faz o que precisa ser feito, independente de quem você é. Está disposto?

Então vai lá e faz. De vez em quando, dividimos as pregações e abrimos para mais gente, não é só o pastor que fala”, explica Menga.

É essa Dorsal que banca o aluguel do local. Já o dinheiro obtido das doações – sim, como qualquer igreja, há uma caixinha – é destinado também para algumas missões religiosas e outras instituições.


MAS LOGO NA AUGUSTA?

Tudo começou no Hotel Pan Americano, que, não por acaso, também fica na famigerada Augusta. Um pequeno grupo se reunia para conversar e interpretar a Bíblia. Depois, os encontros passaram a ser realizados em um bar na frente do Vegas, no antigo Boca Club, que fica sabe onde? “A Rua Augusta já fazia parte das nossas vidas antes, a gente saía por aqui. Nada mais lógico do que fazer alguma coisa por aqui também. É uma rua como qualquer outra, só que é mais divertida. Então pensamos: por que não abrir esse esquema para mais pessoas?”, explica Guilherme. “Fazer no vão do MASP é uma maneira prática de dizer que a igreja não é o lugar, não é o prédio, nem a rua, mas sim onde as pessoas estão”, declara.

Sidney, o vocalista da banda, frequenta igrejas desde os 18 anos e conheceu a Capital através de amigos. “Estou aqui desde o começo. A principal diferença para as outras é a liberdade de ser quem eu sou”, diz. “Não que as outras pelas quais eu passei tenham sido ruins, pelo contrário, me ensinaram muita coisa. Porém passaram muito mais o lance de ter que colocar uma máscara, de ter que ser meio fantoche e viver com um sorrisinho na cara, mais regrado, do tipo ‘lá fora eu posso ser quem eu sou, mas aqui dentro tenho que ser como eles querem’. E isso pesava um pouco, pois não fazia nenhum sentido. Ser livre é ser como eu sou, e Deus me aceita como eu sou, só que muitas igrejas pregam o contrário. E o legal da Capital é que aqui a gente consegue ser livre. Todo mundo é igual, seja pastor, músico ou membro. Isso é o bacana”, conta.


O mesmo discurso é seguido por Douglas Pimentel, 23 anos de idade e cerca de 18 meses de igreja do Baixo Augusta, que conheceu através de um vídeo na internet. “Eu nasci no meio evangélico, meus pais iam direto na Assembléia de Deus. Eu comecei a frequentar até a hora que não deu mais. Bermuda era mal vista, não tinha como seguir lá. Aí com 15 anos eu montei uma banda e fiquei um bom tempo fora da igreja, embora nossa banda tivesse uma temática de oferecimento, de louvor. Ficamos assim até achar um lugar que a gente se identificasse, como a Capital. Aqui é livre, não rola preconceito”, afirma. Douglas acredita que o Cristianismo não é uma caixinha fechada com regras. “Não é a questão do rock ou do samba, é uma questão cultural. A forma como você entende é a forma que você vai louvar, vai adorar. É por aí”.

SEXO E TRAGO, PODE?
Se falar sobre sexo já é um assunto meio tabu na sociedade, imagina em igrejas evangélicas. Homossexualismo, então, passa longe das conversas. É coisa do Capeta? Do Exu? De quem está com o diabo no corpo? Na Capital Augusta, como não poderia deixar de ser, o tema é tratado mais abertamente. “Em primeiro lugar, a sexualidade não é o nosso foco, pois estamos interessados nas pessoas. Mas a Bíblia é cheia de recomendações e uma delas é a de que o sexo é uma expressão de nível de intimidade maior”, explica Guilherme Menga. “Existem diversos níveis e o ideal é que eles ocorram dentro de uma aliança de compromisso, o casamento. Mas cara, no fim das contas, a escolha é sua. Todo mundo é aceito aqui, a gente vai respeitar a escolha de cada um. Quanto ao homossexualismo, a gente acha que o ideal é sempre entre um homem e uma mulher. Nós não somos uma igreja gay, mas também não somos uma igreja heterossexual. Não acreditamos que é doença, nem que é espírito, nem que é escolha. Todo mundo é bem-vindo aqui, e ninguém é perfeito, a começar por nós”, diz.

Até o bom e velho goró é aceito na Capital, mas sempre com moderação. Não vai inventar de chegar lá mamado e querer pregar, pois a atitude não será bem vista pelos fiéis. E nem por Jesus. “A Bíblia fala claramente: não se embriague, não exagere. Conheça o seu limite, e cada um sabe qual é o seu. A gente sabe o que faz mal”, destaca Menga.


Gostou? Quer virar um evangélico? Tinha vergonha e agora se sente mais à vontade para orar? Dá uma conferida no site (capitalaugusta.com) e conheça um pouco mais o trabalho dos caras. Também é possível curtir uns podcasts religiosos por lá. Em vez de ficar aí baixando putaria e música brega na internet, exercite a sua religiosidade. Aliás, a web é a maior aliada na divulgação da Igreja Capital Augusta, já que a maioria dos fiéis está na faixa dos vinte e poucos anos e compartilham sua fé nos Facebooks, Twitters e Orkuts da vida. Mas sabe o que é mais interessante? Pertinho dali, na Rua Augusta, 501, quase em frente à igreja, fica um bar chamado Inferno. Será um sinal da eterna batalha entre o Bem e o Mal?

fotos: Lita Almeida e Vinícius de La Rocha
dica do Junior Souza


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