28/11/2014

O teísmo aberto é necessário?

Um argumento sofista bastante utilizado por calvinistas na tentativa de impor seu determinismo pela lógica é que, se Deus conhece todo o futuro, então o futuro terá que acontecer necessariamente, e, portanto, os atos humanos não são livres, mas já estão estabelecidos. Infelizmente, alguns teólogos arminianos caíram nesta ideia e deixaram o arminianismo clássico para seguirem aquilo que alguns tem chamado de “neoarminianismo”, que nega a presciência de Deus.
O nome mais conhecido deste movimento é “teísmo aberto”, que seria uma forma de expressar que o futuro não está aberto somente para nós, mas também para Deus. Para eles, somente assim o homem seria realmente livre, e, portanto, o teísmo aberto seria necessário para dar consistência ao arminianismo. Entre seus principais proponentes, podemos citar Richard Rice, Clark Pinnock e John Sanders. Pinnock, por exemplo, escreveu:
“Se Deus vê todo o futuro, este, então, é fixo, imutável, e estamos errados em crer que temos a liberdade de escolher um ou outro caminho. Deus já sabe o que Reichenbach fará com seu pedaço de doce. Assim, o futuro não é como ele pensa, um reino de possibilidades abertas no qual ele pode, mediante sua liberdade, determinar a verdade. Esta não pode aparecer de jeito diferente daquele em que Deus, desde a eternidade, sabe infalivelmente como será. Reichenbach só pode escolher a prática daquelas ações que Deus sempre soube que ele haveria de praticar. Portanto, ele não pode agir de modo diferente daquele a que está destinado”[1]
Richard Rice formaliza o argumento dos teístas abertos da seguinte maneira:
“Apesar de as afirmações de que a presciência absoluta não elimina a liberdade, a intuição nos diz o contrário. Se a presciência de Deus é infalível, então o que Ele vê não pode deixar de acontecer. Isto significa que o curso dos eventos futuros está fixo, seja lá como expliquemos o que realmente os causa. E, se o futuro é inevitável, então as aparentes experiências de livre escolha são apenas uma ilusão”[2]
Calvinistas tem usado isso contra os arminianos clássicos, na tentativa de afirmar que somente teístas abertos são arminianos consistentes, e que o arminianismo leva ao teísmo aberto. Em resposta a isso, devemos observar, em primeiro lugar, que nunca o fato de certa posição doutrinária ter uma vertente mais extremada implica em que a doutrina central esteja corrompida. Os próprios calvinistas costumam criticar os chamados “hipercalvinistas”, por serem uma ala mais radical ao calvinismo histórico. Portanto, o fato de haver uma vertente mais extrema no arminianismo não corrompe o arminianismo histórico, da mesma forma que uma ala mais extrema no calvinismo não corrompe o calvinismo histórico.
Em segundo lugar, os teístas abertos (e os calvinistas que sustentam que ele é necessário para dar consistência ao autodeterminismo arminiano) pecam gravemente ao fazerem uso da lógica, pois eles a invertem. Não é a presciência de Deus que determina os atos humanos; são os atos humanos que determinam o que Deus previu. Ao inverterem a lógica, os teístas abertos fazem parecer que o conhecimento de Deus é causativo, quando, na verdade, a causa provém dos homens, e não do conhecimento de Deus.
Como diz Reichenbach, “argumentar nesta linha é confundir a ordem das causas (que é que faz acontecer um fato) com a ordem do conhecimento (a base sobre a qual chegamos a saber algo)”[3]. Em outras palavras, Deus sabiaque dois avisões atingiriam as Torres Gêmeas em 11 de Setembro de 2001, mas ele não causou ou determinoueste acontecimento, ele meramente o anteviu. O que causou foi, de fato, os seres humanos que colocaram os avisões contra os prédios. Deus conhece o futuro sem causar o futuro.
Olson diz:
“Deus conhece previamente porque algo vai acontecer; ele não conhece previamente porque ele preordena. Em outras palavras, de acordo com a Escritura, tradição e a razão, o pecado de Adão é o que fez com que Deus o conhecesse”[4]
A presciência de Deus quanto aos eventos futuros é semelhante ao conhecimento que possuímos do passado. Eu sei que Rogério Ceni fez uma defesa antológica – quase um milagre – no chute de Steven Gerrard pela final do Mundial de 2005. Este fato está fixo e nunca mudará. Em outras palavras, ele está determinado para sempre. Por mais que eu rebobine a fita ou volte o replay, ele irá sempre executar a mesma defesa. Mas o fato de eu conhecereste acontecimento não significa que eu o causei. O meu conhecimento do passado não tem qualquer ligação com eu ter determinado estes eventos que já ocorreram. O que determinou os eventos foram os atos livres dos jogadores.
Com Deus é a mesma coisa, exceto que, por ser eterno, ele não tem conhecimento apenas do passado, como nós temos, mas também do futuro. Mas, assim como o conhecimento que nós temos do passado não nos tornacausadores dos eventos que ocorreram, assim também é com o conhecimento de Deus quanto ao futuro. O conhecimento prévio de Deus depende dos atos humanos, e não o contrário.
Eu não estou escrevendo esta página exatamente às 22:00 de 14 de Março de 2014 porque Deus determinou que eu a escrevesse neste dia e horário. Eu escrevi neste horário porque quis escrever neste horário. Mesmo que eu decidisse escrever daqui um ano ou que nunca escrevesse, Deus teria este conhecimento prévio não-causativo.  Não é a presciência de Deus que fez com que eu escrevesse neste horário, mas o fato de eu escrever neste horário foi previsto por Deus. Eu sempre estive livre para agir de forma diferente, caso quisesse.
Ninguém fala melhor sobre isso do que Robert Picirilli. Em um artigo sobre o teísmo aberto, ele diz:
“Certeza não contradiz contingência. A presciência de Deus de atos futuros não é a causa destes fatos, da mesma forma que o nosso conhecimento de atos no passado não é a causa destes. Apesar de Deus conhecer o futuro de antemão, Seu conhecimento destes fatos futuros flui dos próprios fatos. Mesmo se Deus não conhecesse o futuro, ainda assim ele seria certo! Uma pessoa que crê na liberdade libertária não precisa tomar o passo que tomam os teístas abertos para negar a presciência exaustiva de Deus”[5]
Em outras palavras, “o que será, será” ainda que Deus não exista. Da mesma forma que alguma coisa ocorreu no passado e este passado é imutável (o que foi, foi), igualmente alguma coisa irá acontecer no futuro e isso que irá acontecer acontecerá, e ninguém poderá mudar o que ocorrerá. Que há um futuro que irá acontecer, isso é fato, Deus existindo ou não, determinando ou não. O ponto de disputa é o que causará estes eventos que irão ocorrer.
Arminianos clássicos creem que o que determinará o futuro será as ações dos seres humanos – que foram meramente previstas por Deus, e não causadas por Ele – enquanto calvinistas creem que o que determinará o futuro será aquilo que já foi determinado por Deus no passado. Então, enquanto os teístas abertos creem que a presciência de Deus me levou a cometer um ato, os arminianos clássicos creem que foi o meu ato livre que fez com que Deus soubesse daquilo.  Em outras palavras, Deus conhece porque o homem fará, e não o homem fará porque Deus conhece.
Robert Picirilli aborda isso nas seguintes palavras:
“Eu sei que o Rocky Marciano se aposentou dos ringues como campeão invicto dos pesos pesados. Posso então dizer que ele não poderia ter perdido alguma de suas lutas, pois, senão, isto tornaria o meu conhecimento errôneo? Obviamente que não; se ele tivesse perdido alguma luta, eu não teria o conhecimento de que ele se aposentou invicto. Então também não podemos dizer que Deus não poderia ter evitado o Holocausto porque, para fazê-lo, seria tornar a Sua presciência errônea. Mais uma vez, conhecimento − até mesmo a presciência de Deus − flui dos fatos e não vice-versa”[6]
John Wesley também cria assim. Embora o teísmo aberto não existisse em seus tempos, ele praticamente se antecipou a esta argumentação e disse:
“Nós não devemos pensar que eles existem, porque Ele os conhece. Não: Ele os conhece, porque eles existem. Justamente como eu sei que o sol brilha: ainda assim, o sol não brilha porque eu o conheço, mas eu sei disto, porque ele brilha. Meu conhecimento supõe que o sol brilhe, mas de maneira alguma causa isto. De igual maneira, Deus sabe que aquele homem peca, porque ele conhece todas as coisas. Ainda assim, nós não pecamos porque ele sabe disto, mas ele sabe disto, porque nós pecamos; e seu conhecimento supõe nosso pecado; mas, de maneira alguma, é a sua causa”[7]
Bruce Reichenbach segue na mesma linha e diz:
“Deus sabe os fatos, e o que Ele sabe é aquilo que efetivamente as pessoas fazem. Entretanto, este conhecimento não determina as ações que praticamos. Esse conhecimento baseia-se nas próprias ações. Dessa forma o futuro, como diz Feinberg, está ‘estabelecido’, contudo, não de maneira trivial: faremos aquilo que Deus sabe que faremos, o que significa que faremos aquilo que realmente faremos. Entretanto, isso ainda nos deixa perfeitamente livres (no sentido indeterminista) para fazer ou não fazer”[8]
Ele também acrescenta:
“Na verdade, a presciência depende do acontecimento, e não vice-versa. Por exemplo, Deus crê que eu escrevo esta sentença porque é verdade que eu a escrevo. É verdade que eu a escrevo por causa do fato que eu a escrevo. Num sentido trivial, é verdade que se Deus crê que eu a escreverei, então eu a escreverei mesmo. Contudo, o conhecimento de Deus não causa o fato de eu escrever. Ao invés disso, o fato de eu escrever, faz com que seja verdadeira a crença de Deus em que eu escreverei. Em suma, devemos ter cuidado para não confundir as condições que provêem a base de nosso conhecimento daquilo que acontece, com as condições que causam o fato vir a acontecer. Saber que algo é verdade não faz com que o evento aconteça”[9]
A conclusão disso, como diz Stephen Charnock, é que, “assim, o ser humano tem o poder de agir diferente do que Deus pré-conhece. Adão não foi obrigado a cair por alguma necessidade interior, e ninguém é, por qualquer necessidade interior, forçado a cometer este ou aquele pecado particular; mas Deus previu que ele cairia, e que cairia livremente”[10]. Isso nos ajuda a dirimir alguns “dilemas” da Bíblia. Por exemplo: Judas traiu Jesus livremente ou ele foi forçado a isso? Se estava profetizado que um discípulo iria traí-lo, Judas poderia não trair Jesus?
Aparentemente, Judas não poderia não trair Jesus. Mas quando pensamos dentro do prisma da presciência não-causativa de Deus, vemos que Deus previu, desde a eternidade, que Judas trairia Jesus livremente, por livre e espontânea vontade. Judas poderia não ter traído Jesus, mas Deus sabia que ele pecaria livremente, ou seja, que ele escolheria trair. O ato livre e a decisão espontânea que Judas tomou foram previstos por Deus, de modo que a tradição pôde ser profetizada e depois cumprida.
Então, temos o seguinte quadro:
  • Judas é um homem livre. Ele pode escolher trair ou não trair Jesus.
  • Judas livremente decide que vai trair Jesus.
  • Deus antevê, por sua presciência, que Judas trairia, porque Judas, no futuro, decidiu isso livremente.
  • Então, Deus profetiza desde o passado que um dos discípulos trairia Jesus, e o próprio Jesus confirma isso.
Como vemos, o ato de Judas foi autodeterminado, e não determinado por Deus. O fato de Deus prever o evento não o torna o causador do evento. De fato, Deus poderia determinar tudo e prever aquilo que determinou, da mesma forma que poderia deixar que os homens determinassem suas próprias decisões que ele, por sua presciência, as conheceria de antemão. A presciência de Deus, embora infalível, não é causativa. O que causa as ações são as decisões humanas; Deus meramente as conhece e sabe aquilo que os homens irão optar livremente.
Norman Geisler fala sobre outro “dilema” bíblico:
“Paulo assegura de antemão aos seus companheiros de viagem que ‘nenhum de vocês perderá a vida; apenas o navio será destruído’ (v. 22). Todavia, uns poucos versículos adiante ele os adverte: ‘Se estes homens não ficarem no navio, vocês não poderão salvar-se’ (v. 31). As duas coisas são verdadeiras. Deus sabia de antemão e tinha revelado a Paulo que ninguém se perderia (cf. v. 23), mas também sabia que seria por meio da livre-escolha de permanecer no navio que isso seria cumprido”[11]
Até mesmo o que dissemos anteriormente sobre o dia da volta de Jesus entra neste prisma. O dilúvio veio quando Noé terminou de construir a arca. Se Noé demorasse menos para construir a arca, o dilúvio viria antes. Se demorasse mais, o dilúvio teria vindo depois. Embora Deus já soubesse o dia em que Noé iria terminar a arca e que ocorreria o dilúvio, ele soube desde dia em função dos atos livres de Noé, e não o contrário. Ele não determinou que Noé iria acabar no dia”x”. Ele soube que Noé iria acabar no dia “x”.
Desta forma, o dia está condicionado às ações humanas, embora Deus já saiba das ações humanas e, portanto, do dia. A mesma coisa se aplica à volta de Jesus. Como já vimos, Pedro nos disse que podemos apressar a vinda de Cristo. Embora Deus já saiba qual será este dia, ele não o determinou de forma independente das ações humanas. São as ações humanas (neste caso, o evangelismo em escala global) que podem apressar ou retardar este dia.
Compreender a presciência de Deus e o livre-arbítrio do homem é essencial para entendemos melhor o mundo que nos rodeia e para solucionarmos os “dilemas” bíblicos. Invertendo a lógica e concedendo causalidade à presciência, realmente o homem não seria livre. Mas ele é livre desde que são os seus atos que determinam a presciência de Deus, e não a presciência que determina quais serão os atos.
Seja lá o que o homem fizer, Deus sabe. E o homem poderia agir diferente, e, neste caso, Deus saberia também. Deus sabe sem causar; ele sabe porque o homem fará, não o contrário. Os atos humanos são autocausados econhecidos por Deus, e não conhecidos e determinados por Deus. Entendendo isso, perde-se totalmente a necessidade de aderir ao teísmo aberto, e o arminianismo clássico permanece sendo um arminianismo consistente.
[1] PINNOCK, Clark H. Predestinação e Livre-Arbítrio: Quatro perspectivas sobre a soberania de Deus e a liberdade humana. Editora Mundo Cristão: 1989, p. 170.
[2] Richard Rice, “Divine Foreknowledge and Free-Will Theism” em Pinnock, The Grace of God, 127.
[3] REICHENBACH, Bruce R. Predestinação e Livre-Arbítrio: Quatro perspectivas sobre a soberania de Deus e a liberdade humana. Editora Mundo Cristão: 1989, p. 139.
[4] OLSON, Roger. Contra o Calvinismo. Editora Reflexão: 2013, p. 299.
[5] Robert E. Picirilli, Presciência e a Morte de Cristo, p. 3.
[6] Robert E. Picirilli, Presciência e a Morte de Cristo, p. 3.
[7] WESLEY, John. Sermão sobre a Predestinação, 5.
[8] REICHENBACH, Bruce R. Predestinação e Livre-Arbítrio: Quatro perspectivas sobre a soberania de Deus e a liberdade humana. Editora Mundo Cristão: 1989, p. 74.
[9] REICHENBACH, Bruce R. Predestinação e Livre-Arbítrio: Quatro perspectivas sobre a soberania de Deus e a liberdade humana. Editora Mundo Cristão: 1989, p. 139.
[10] Stephen Charnock, Discourses Upon the Existence and Attributes of God, p. 450.
[11] GEISLER, Norman. Eleitos, mas Livres: uma perspectiva equilibrada entre a eleição divina e o livre-arbítrio. Editora Vida: 2001, p. 47.


Extraído do livro “Calvinismo X Arminianismo: quem está com a razão?”, Biazoli, cedido pela comunidade de arminianos do Facebook